quinta-feira, 1 de abril de 2010

Não julgue o verbo ler... Leia.


- Mutante?
- Sim?
- Conte-me uma história.


E começou assim. Um pedido saindo de um livro que, por sua vez, acabou saindo de minha cabeça após uma tarde inteira folheando páginas. Li outra vez A Sombra do Vento, de Zafón. Foi como um combustível alimentando o tanque do cérebro, enchendo a engrenagem da imaginação até a borda. Uma sensação única, quando se está imerso no abrigo de uma história, sendo ela amaldiçoada ou não. Sou suspeita neste caso; sempre imagino uma gama de cores, gestos e vozes saindo das linhas no papel para a perumba do meu quarto, a tal ponto que fico extremamente viciada - e no pior dos casos, dependente - pelo universo do tal livro.
É daí que saem as minhas próprias histórias.
Sem falar naqueles extras que assisto sem querer na troca de canal; narrações sobre os contos que ouvíamos desde muito pequenos, tramas singelas de infância que foram se transformando nos enigmas hipnóticos, a cada vez que retiramos aquele livro velho do armário para novamente sermos tragados por ele. Fica a dica. Sigo aproveitando meu feriado no melhor estilo livro e sofá, esquecendo, por hora, a visita do coelho. Resolvi, assim por acaso, repetir o gesto. Quase o fiz escondido, por medo de que algum par de olhos descobrisse minha travessura. E olha quem diria... posso até sentir o silvo do vento no movimento breve de folhas frágeis, no aroma meio amargo de chocolate no ar. Uma sombra no vento...

P.S.: É bom receber um livro até mesmo na cestinha de Páscoa. Um abraço ao meu fiel amigo mutante; sinto falta das diferenças nas nossas histórias... outro abraço à minha 'coisaquirida' Lu, que hoje me mandou um recado. E um super abração merecido à minha própria quinta-feira, que me embarcou em uma viagem sem fim aos desenhos animados no sótão do Caju.

Boa noite!

(:

terça-feira, 30 de março de 2010

Bem-vindo de volta, Frank

Caro,

Fico feliz em saber que posso comunicar boas notícias nesta carta que lhe envio. Considerando meu contingente de reclamações por minuto na última semana, devo primeiramente lhe pedir desculpas pelo comportamento digno de alguém abissalmente tolo e desprovido de senso. Prometo fervorosamente uma melhora em meu núcleo danificado no decorrer deste novo recomeço.
Como pronunciado de início, digo-lhe que as coisas por aqui vão bem, apesar das poucas contradições que me levaram a calcular um outro ponto de vista. Minha atual baía de pensamentos encontra-se bem abastecida de reações que pendem para o lado pleno de meu cérebro, não somente guiada pela parte instintiva, como antes. Considere tal afirmação um pequeno bônus gratificante de uma parcela gradativa de melhoras em meu eu. Seria ferir o próprio ego, mas admito que mesmo os erros fossem capazes de compensaram a mudança abrupta de identidade criminosa. Meu único delito foi me deixar levar pelo instinto puro de sobrevivência, cujo escape me conduziu à plenitude desejada.
É de suma importância abordar o fato de que meu porto de navegação não escaparia do náufrago certeiro e irreversível se não fosse pelas suas palavras de conforto e a promessa de manhãs melhores. A maior parcela de mim decidiu guiar-se por inteiro a este barco que carregou suas esperanças na viagem que acompanhou as minhas. A trajetória desconhecida foi o ápice de todas as decisões secundárias. Se eu preferia ter desistido do risco para seguir no velho conjugado de lembranças mofadas? A resposta agora rola fácil por minha garganta. Não. Definitivamente não. Meu lado aventureiro foi igualmente abastecido, e lhe agradeço por isso. Eu não teria sido capaz de comprar a passagem sozinha.
Entrementes, prefiro não por em pauta os motivos restantes que nos levaram a essa mudança de rota. Desventuras imprevisíveis são as mais excitantes linhas a serem desbravadas, e como você mesmo me sussurrou em uma noite tempestiva sobre minha cabeceira, o modo mais viável de se escapar do perigo é justamente lutar para enfrentá-lo. Bem, é o que farei a partir desta manhã, contrariando meu bom senso, apesar de todo o resto. Por isso estou aqui agora.

PS: Com o máximo cuidado para não contrair os dedos e amassar o bilhete de metrô.

Abraços,
Lauren.


Dobrei a folha de papel ao meio e a entreguei ao homem que me acompanhava. Não foi difícil ouvir seu riso baixo, apesar do tumulto na estação. Seus dedos roçaram nos meus, salpicando-os com as gotas da chuva que se estendia infinitesimalmente por todo o distrito de Rushmoor. Não havia falhas no tempo, contudo, eu esperava que a nova estação quebrasse o pacto rústico das nuvens carregadas.
Era de certo modo reconfortante saber que eu estava deixando essa atmosfera para trás.
Os passos de Jason detiveram-se a fim de acompanhar minha lentidão.
– Minha caixa de correspondências está lotada, você sabe...
Sua voz rouca e baixa era o único som que eu podia ouvir.
– Eu sei. Esta é a última do pacote.
Eu estava voltando ao condado natal, em Durhan. O lugar do qual – pensando sob uma nova perspectiva – eu nunca deveria ter saído.
– Cora... – meu pai me chamou por meu segundo nome que lhe era preferido, naquela voz baixa, conforme eu seguia para o metrô. – Me ligue quando chegar.
Eu me virei. Nós éramos parecidos em tudo, tanto física quanto psicologicamente. Os profundos olhos avelã postados em meu rosto pálido sob uma camada grossa de cílios longos eram os mesmos que agora me observavam. Assenti, duvidando que o tranco em minha garganta passasse de imediato; a nostalgia da partida me acompanharia pelas próximas cinco horas.
– Seus avós cuidarão bem de você – continuou ele, ajeitando a desordem dos cabelos escuros na falta de melhores gestos que disfarçassem o nervosismo. – Procure não ser tão... inflexível.
– Tudo bem, pai – envolvi suas mãos nas minhas e sustentei o olhar, ultimamente tão preocupado. – Vai ser bom para mim. Para nós.
O barulho constante da chuva tamborilava mais forte em meus ouvidos, junto do pandemônio de passos dos transeuntes. Então o torpor havia passado.
– Mande lembranças a eles – pediu Jason. Nossos dedos iam escapando, e aos poucos eu não conseguia ver mais nada além dos passageiros que me engolfavam. As portas do metrô se fecharam e eu acenei para o rosto que ainda se despedia, para o condado de Hampshire e às folhas amortalhadas que ficavam para trás...


P.S.: Primeiro epílogo oficial de meu Frankstein. É quase um milagre eu ter conseguido alguns parágrafos decentes nessa última semana de cão. Preciso de um depósito com novos ares, refrescar a cabeça, dispersar o estresse no contingente de tarefas de uma formanda que tenta a todo custo manter a identidade de escritora à altura desejada. Aos amigos, um abraço e um obrigado por me aturarem quando nem mesmo eu estava com paciência para mim. Irei resgatar meu Frank das profundezas tediosas de meu cérebro.

Abraços! (:

domingo, 28 de março de 2010

Soneto

"Tua caminhada ainda não terminou....
A realidade te acolhe
dizendo que pela frente
o horizonte da vida necessita
de tuas palavras
e do teu silêncio.

Se amanhã sentires saudades,
lembra-te da fantasia e
sonha com tua próxima vitória.
Vitória que todas as armas do mundo
jamais conseguirão obter,
porque é uma vitória que surge da paz
e não do ressentimento.

É certo que irás encontrar situações
tempestuosas novamente,
mas haverá de ver sempre
o lado bom da chuva que cai
e não a faceta do raio que destrói.

Tu és jovem.
Atender a quem te chama é belo,
lutar por quem te rejeita
é quase chegar a perfeição.
A juventude precisa de sonhos
e se nutrir de lembranças,
assim como o leito dos rios
precisa da água que rola
e o coração necessita de afeto.

Não faças do amanhã
o sinônimo de nunca,
nem o ontem te seja o mesmo
que nunca mais.
Teus passos ficaram.
Olhes para trás...
mas vá em frente
pois há muitos que precisam
que chegues para poderem seguir-te."



Charles Chaplin

P.S.:Um obrigado à trilha dessa última semana; o acústico de The Last Shadow Puppets. Ah, e aos filmes que deixaram o tempo chuvoso um pouco mais doce; Elizabethtown, PS I Love You e Pride and Prejudice.


;)

domingo, 21 de março de 2010

Uma dose de palavras, por favor.

"As construções pareciam grudadas umas nas outras, quase todas de casas pequenas e edifícios de ar nervoso. Havia uma neve suja, estendida feito um tapete. Havia concreto, árvores nuas que pareciam porta-chapéus, e um ar cinzento. "

"Pensando, não pela primeira vez, que a vida deveria vir com um alçapão. Simplesmente uma pequena escotilha de saída na qual você pudesse desaparecer quando tivesse absoluto e completamente se envergonhado. Ou quando você tivesse erupções de espinhas espontâneas."

"Perder-se também é caminho."


"Todas as máscaras caem um dia. Assim como no teatro, quando falas declamadas não passam de meras palavras soltas aos ouvidos errados. Se assim fosse, haveriam sombras ao invés de atores."

"Uma ave deve voar, mesmo que o céu esteja cheio de abutres."

"A morte é apenas uma travessia do mundo, tal como os amigos, que atravessam o mar, e permanecem vivos uns nos outros. Porque sentem necessidades de estar presentes, para amar e viver o que é onipresente. Nesse espelho divino, vêem-se face a face; e sua conversa é livre e pura. Este é o consolo dos amigos e embora se diga que morrem, sua amizade e convívio estão, no melhor sentido, sempre presentes, porque são imortais."


"Num mundo onde já não há romance, o melhor é estarmos mortos."

"Descansa do som no silêncio, e do silêncio digna-te retornar ao som. Sozinho, se souberes estar só, deixa-te ir por vezes à multidão. "


"Ausência é uma forma de estar presente sem que o ausente saiba."

"Há pensamentos que são orações. Há momentos em que qualquer que seja a posição do corpo, a alma está de joelhos."

"O fim do homem é sempre mais marcado que o seu início. O pôr-do-sol, a música de encerramento, assim como a última mordida num doce, sempre mais doce no final... O que é escrito na lembrança vale mais do que o que ficou perdido no passado."

"Ele segue entrelaçando tramas e enigmas ao modo de bonecas russas. Eu sigo dialogando sobre poetas malditos, línguas mortas e obras-primas abandonadas à mercê da traça."

"Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está escondida numa caixa de bombons."

"Primeiro me fizeram os meios, depois as pontas. Só muito mais tarde cheguei aos extremos."

"A esperança é crônica. O medo é agudo."

"Uma definição não encontrada no dicionário: não ir embora; ato de confiança e amor, comumente decifrado por crianças."

"A poesia é indispensável. Se eu ao menos soubesse por quê..."

"Atuar é a arte de fazer todo mundo ficar sem tossir por um tempão."

"A vida não tem de ser preto e branco. Acrescenta-lhe um pouco de vermelho."

"Todos os livros deveriam vir com uma trilha sonora."

"Tenho milhares de momentos desse tipo - meu cérebro adormece ou algo assim e, quando me dou conta, vejo que perdi alguma coisa."

"Gosto do céu cor de chocolate. Chocolate escuro, bem escuro. As pessoas dizem que condiz comigo..."

"Contos de fadas são a pura verdade: não porque nos contam que os dragões existem, mas porque nos contam que eles podem ser vencidos."

"Muitas vezes procuramos a felicidade como quando procuramos os óculos quando estão no nariz."

"Às vezes o simples fato de você dizer que detesta alguma coisa e ter alguém que concorda pode ajudá-lo a suportar uma situação horrível."

"Anjos nunca vêm de graça.Primeiro você odeia amá-los,então você ama odiá-los."

"Nunca troquei o velho pelo novo. Desde pequena, sou antiga."

"Se você procurar todas as respostas, acabará louco. Se já for louco, procure todas as respostas. Enquanto ainda houverem perguntas, continuarei a escrever."

P.S.: Uma colher de chá com frases extraídas do baú do empório.

Na rota do conto


Imagino eu mesma em um lugar isolado do resto quando esbarro em certas histórias. Um empório totalmente diferente do qual estou acostumada a narrar meus fatos inventados. Elas saltam de repente em minha linha de visão, quase sempre entre aspas que descrevem sua estranheza única, e acabam por me fascinar. Uma livraria inabitada no fim da rua estreita, ou uma tabacaria mal frequentada de cheiro acre. Cenários assim. É quase como uma crise de consciência que só se revela quando a primeira página é lida, para daí cairmos de fuça no conto e sermos prisioneiros de suas aspas.
O porquê dessa rota?
Hoje reli Neil Gaiman - tenho um sério fascínio por Coraline - e daí parti para Stephen King. Graças a eles minhas entrelinhas voltaram para casa.

"As coisas mais importantes são as mais difíceis de expressar. São coisas das quais você se envergonha, pois as palavras as diminuem - as palavras reduzem as coisas que pareciam ilimitáveis quando estavam dentro de você à mera dimensão normal quando são reveladas. Mas é mais que isso, não? As coisas mais importantes estão muito perto de onde seu segredo está enterrado, como pontos de referência para um tesouro que seus inimigos adorariam roubar. E você pode fazer revelações que lhe são muito difíceis e as pessoas o olharem de maneira esquisita, sem entender nada do que você disse nem por que eram tão importantes que você quase chorou quando estava falando. Isso é pior, eu acho. Quando o segredo fica trancado lá dentro não por falta de um narrador, mas de alguém que compreenda."

P.S.: Agradecimento às recentes obras lidas e esquecidas em meu velho empório: Agatha Christie, Victor Hugo, Mark Twain e Ralph Waldo Emerson.
;)

Stare

" - Às vezes, acredito que seis coisas impossíveis acontecem antes do café da manhã...
É loucura?
Disseram-me que as nossas vidas não valem grande coisa...
Elas passam em instantes, como murcham as rosas.
Disseram-me que o tempo que desliza é um bastardo!
Que das nossas tristezas ele faz suas cobertas...
Disseram-me que o destino debocha de nós.
Que ele não nos dá nada e nos promete tudo...
Nos faz acreditar que a felicidade está no alcance das mãos...
Então a gente estende a mão e se descobre louco!
- Mas aqui vai um segredo: antes do café, há apenas o sonho.
E quanto à loucura... Todas as boas pessoas são assim.
P.S.: É um segredo. Não diga ao destino que eu contei a você."

P.S².:Dedicado à fiel amiga bucaneira. Abraços, Ann.
(:

sábado, 20 de março de 2010

Desventuras

"Somente o pintor e aqueles que sabem ver têm acesso irrestrito ao espaço mágico."

Essa é uma de minhas histórias favoritas, apesar de ela ainda não ter sido inventada. Pode-se dizer que a escritora está em um processo demorado de manutenção da mente; procurando meios de ressuscitar entrelinhas perdidas. Por motivos meramente incompreensíveis aos olhos fadados à realidade sem fantasia, Dill (o pseudônimo escolhido pela escritora no conto de hoje) arrumou os prós e contras à mesa, a fim de que a história seja inventada. Embromações serão desnecesárias no decorrer das linhas. Exceto, é claro, na introdução.
Devo mencionar que a narrativa deve ser narrada a partir do fim, não do começo. Há coisas impossíveis que somente tornam-se possíveis no fim da meada, na transição de um verso a outro. Se essas coisas fossem reveladas no cabeçalho da página, elas tampouco distinguiriam o possível do impossível.
Iniciando a embromação do cumprimento, nada mais justo do que apresentar a personagem que melhor sabe separar a fantasia da realidade e, ainda assim, mesclar ambas nos momentos de silêncio. Elise preferia viver em seu próprio mundo enroscado nas camadas do mundo em que seus pensamentos não eram entendidos, compreendidos ou compartilhados. Ninguém reconhecia suas entrelinhas, tampouco sabiam o que era realizado por suas mãos no decorrer dos dias. Não era uma garotinha isolada do resto, mas também não era mais garota. Como os longos cabelos de ébano, Elise crescera em altura e maestria. Os dedos longos, brancos e sempre gelados teciam melodias sobre as teclas do velho piano herdado da mãe já falecida, como aranhas moldavam suas teias em um infinito espaço de tempo. Os olhos, profundos e silenciosos como um poço de vilarejo, por vezes gritavam, espantando epifanias à mercê das notas. Era sua única distração, sua única paixão em um conceito que ela mesma desconhecia; o golpe da graça. O resto é que se desviava dela, como um curso de trem modificado às pressas. Engrenagens iam formulando suas próprias rotas na estranheza adquirida diante da janela do sobrado onde Elise residia. A garota que não mais se encaixava nesse perfil, no ápice de seus 19 aprendera a seguir seu nariz em momentos de dúvida e desespero. Na melancolia ela traçava a felicidade de ser triste, quando vez ou outra conversava em paz consigo mesma. Não eram conversas muito proveitosas para serem levadas adiante; serviam mais de mercadoria indispensável. Em um resumo embromado, Elise era assim: uma recém jovem na busca contínua de uma identidade que a servisse devidamente. Algo que não fosse um espartilho, e sim algumas peças que lhe fossem confortáveis e a permitissem seguir sempre em frente com segurança na direção dos campos verdes. Os olhos gritantes desbravavam sonhos em cifras, os cabelos soltos corriam na leveza do vento e as poucas palavras pronunciavam-se na força da tempestade. Como um pintor, Elise tinha total acesso à sua única magia de mundo moldada nas teias de suas vontades. Ela era maravilhosamente estranha aos olhos da escritora. Uma peça única no xadrez. A excessão da desventura que se iniciava a partir do fim.
Aqui, dependendo se vai ou fica, uma pequena parte de crônica surge na invenção que flutua sobre o tédio de sábado da Dill. Desventuras criadas em diferentes épocas e regiões. Particularmente, eu sugeria um condado suburbano em terras inglesas nubladas.
Mas aí seriam semelhanças demais.

P.S.: Eu acabei de processar um epílogo? Ele tem razão, a história nem ao menos foi criada. Uma coisa sem pé nem cabeça que surgiu de uma música. Ao menos serviu para me levantar e espantar a mesmice com um safanão bem merecido. Continuo a desenvolver capítulos a partir daqui, com algumas peças novas de xadrez à mercê do outono e das xícaras sagradas de café.

Abraços! (: